CHAMADO AOS NÃO CONVERTIDOS
Sermão
(nº. 174)
Pronunciado
na noite de Domingo, 8 de novembro de 1857,
pelo Rev. C. H. Spurgeon
na
Capela de New Park Street, Southwark (Inglaterra)
Todos
aqueles que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque está escrito:
maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no
livro da lei, para fazê-las. (Gal. 3:10).
II
O
acusado é, então, julgado e reconhecido culpado. Agora SUA SENTENÇA TERÁ DE SER
PRONUNCIADA. Em geral, os ministros de Deus amam pouco esta tarefa. De minha
parte, lhes confesso, preferiria pregar vinte sermões sobre o amor de Cristo,
do que um único como este.
De
resto, me é raro escolher assunto como este, visto que não me parece necessário
tratá-lo frequentemente; entretanto, se nunca o tratasse, se deixasse sempre as
ameaças divinas relegadas a segundo plano, sinto que meu Mestre não poderia abençoar
a pregação de seu Evangelho, porque Ele quer que a Lei e a graça sejam anunciadas
na mesma medida e que cada uma conserve o lugar que lhe é próprio.
Ouçam
então, meus irmãos, enquanto que, com dor na alma eu pronunciarei a sentença
levantada contra todos aqueles dentre vocês que não pertencem a Cristo – Pecador
não convertido! Você é maldito! Maldito neste momento mesmo! Você é maldito não
por causa de um autodenominado mágico qualquer, cujo pretenso sortilégio só
pode despertar medo aos ignorantes; não por algum monarca terrestre que poderia
no máximo fazer perecer seu corpo e devastar seus bens; mas maldito pelo seu
Criador ! Maldito pelo Monarca dos céus! Maldito! Oh! Que palavra é esta!
Que
coisa terrível é a maldição de qualquer parte que ela venha! E a maldição de um
pai, como ela deve ser a mais terrível entre todas! Temos visto pais que,
levados ao desespero pela conduta de um filho rebelde e depravado, têm
levantado suas mãos aos céus, pronunciando sobre o filho a mais terrível das
maldições. A Deus não agrada que eu aprove esse ato! Reconheço, ao contrário,
que é tanto temerário
quanto
insensato. Mas, qualquer que seja a reprovação com que se possa considerar o
ato em si, não resta menos verdadeiro que a maldição de um pai imprime sobre
aquele que a mereceu, uma vergonhosa, indelével destruição. Oh! Eu sofro só em
pensar o que minha alma provaria se tivesse sido amaldiçoada por aquele que me
gerou! Certamente, meu céu estaria coberto por trevas; o sol não brilharia mais
em minha vida. Mas ser maldito de Deus!...
Oh!
Pecadores, as palavras me faltam para lhes falar o que é esta maldição!...
Mas eu
lhes ouço me responder: “Se é verdade que nós temos incorrido na maldição
divina, ao menos não sentiremos seus efeitos durante esta vida; isso é algo que
espera um futuro ainda bem distante, por isso pouco nos inquieta”. Você se
engana, ó alma, você se engana! Desde agora a cólera de Deus permanece sobre você.
Você não conhece ainda, é verdade, a plenitude da maldição, mas por isso agora
mesmo você não é menos maldito. Você ainda não está no inferno; o Senhor não
lhe cerrou definitivamente as entranhas de suas misericórdias e não lhe rejeitou
ainda para sempre; mas você está debaixo do golpe da Lei. Abra o Livro de Deuteronômio.
Leia as ameaças dirigidas ao pecador, e veja se a maldição de Deus não é ali
colocada como algo imediato, atual, presente. (Deut. 28:15-16). Está escrito
que você será maldito na cidade, isto é, no lugar de sua habitação, de seu trabalho,
de seus negócios; você será maldito nos campos, isto é, nos lugares onde você
vai procurar o descanso, repouso, o prazer; seu cesto será maldito e também
sua
amassadeira; o fruto de seu ventre será maldito e o fruto de sua terra; as
crias de suas vacas e as ovelhas de seu rebanho; será em sua entrada e em sua
saída! Há homens sobre os quais a maldição divina parece pesar de uma maneira
visível.
Tudo o
que eles fazem é amaldiçoado. Se eles adquirem riquezas, a maldição se agarra a
elas; se eles constroem casas, a maldição cai sobre suas casas. Veja o avarento:
ele é amaldiçoado em seus tesouros, porque sua alma está tão corroída pela
ganância e cobiça, que ele não pode desfrutar de seus tesouros mesmos. Veja o intemperante:
seu cesto e sua amassadeira são literalmente malditas, porque seu
palácio,
regado de bebidas embriagadoras, não pode mais usufruir de nenhum alimento. Ele
é também maldito em sua entrada e saída, porque desde quando ele atravessa a
soleira de sua própria casa, suas crianças correm para se esconder, tal o medo
que ele lhes inspira. E será maldito um dia, no fruto do seu ventre, porque quando
seus filhos avançarem na idade, eles seguirão certamente o exemplo de seu pai;
eles se darão aos mesmos excessos de seu pai; eles jurarão como ele jurou; eles
se aviltarão como ele se aviltou. Hoje, o infeliz procura talvez se convencer
que pode, sem grande inconveniente, se embebedar e blasfemar quanto bom lhe pareça;
mas que dor aguda atravessará sua consciência (se ainda lhe resta alguma
consciência
...), quando vir seus filhos andarem sobre suas vergonhosas pegadas !
Sim,
repito, a maldição divina acompanha de uma maneira visível certos vícios; mas
ainda que ela não seja sempre igualmente aparente, na realidade ela não pesa menos
sobre qualquer que seja a transgressão da Lei. Você, então, pecador, que vive
sem Deus, sem Cristo, estranho à graça de Jesus, saiba, você é maldito – maldito
quando se assenta, maldito quando se levanta ! Maldito é o leito onde você deita;
maldito o pão que você come; maldito o ar que você respira! Para você tudo está
amaldiçoado. O que quer que você faça, ou aonde você vá, você é maldito!...
Oh!
Pensamento terrível! Neste momento mesmo, eu não posso duvidar; eu tenho diante
de mim um grande número de criaturas imortais que são malditas de Deus!
Infelizmente!
Por que é preciso que um homem fale assim a seus irmãos? Mas ainda que este
dever seja penoso, como ministro de Cristo, eu tenho de cumpri-lo, sem o que eu
seria infiel em relação às suas almas que perecem. Ah! Queira Deus que haja
nesta assembleia alguma pobre alma que, cheia de pavor, grite: “É
verdade
então? Eu sou maldito? Maldito de Deus e de seus santos anjos, maldito sobre a
terra e no céu - maldito ! maldito ! Sempre maldito !” Oh ! Eu estou convencido
que se não quisermos levar a sério esta única palavra –Maldito – não precisará
muito para dar o golpe de morte à nossa indiferença e torpor espirituais!
Mas,
tenho mais que isto a lhe dizer, meu querido ouvinte. Se você é impenitente e incrédulo,
devo lhe advertir que a maldição que hoje está sobre você, não pode em nada ser
comparada com aquela que cairá sobre você depois. Você sabe que em poucos anos
nós devemos morrer. Sim, jovem, logo você e eu envelheceremos; ou talvez bem
antes de alcançarmos a velhice, nos estenderemos sobre nosso leito,
para
nunca mais nos levantarmos. Nós acordaremos de nosso último sono, e ouviremos
murmurar ao nosso redor que nossa última hora vai soar. O médico consultará uma
última vez nosso pulso, depois dirá à nossa família amargurada que não há mais
esperança! E nós estaremos lá, deitados, imóveis e sem força. E nada
virá
romper o silêncio lúgubre do quarto mortuário; apenas o barulho monótono do relógio
ou o choro de nossa mulher e nossos filhos. E teremos que morrer!... Oh! Que
hora solene será quando formos pegos pelo grande inimigo do gênero humano: a
morte!
Já o
gemido despedaça nosso peito; é muito se pudermos articular uma única palavra;
nossos olhos se embaçam; a morte pôs seu dedo frio sobre o calor de nosso corpo
e o atingiu para sempre; nossas mãos recusam levantar-se; estamos à beira do
sepulcro! Momento decisivo, momento solene entre todos os momentos da vida, é
aquele onde a alma entrevê seu destino; onde, como através das fendas de sua
prisão
de barro, ela descobre o mundo por vir! Oh! Que língua humana poderia exprimir
o que passará no coração do não convertido, quando ele estiver diante do tribunal
de Deus, e ouvir o estrondo dos raios de sua cólera eterna em suas orelhas e
sentir que entre o inferno e ele, não há mais que um intervalo de um momento!
Quem
poderia descrever o terror inexprimível que tomará os pecadores, quando se encontrarem
na presença das realidades, sobre a existência das quais não tinham querido
crer? Ah! Desprezadores que me escutem! Hoje vocês podem rir à vontade das
coisas de Deus. Vocês podem, saindo deste recinto, zombar do que acabaram de
ouvir, tornar ridículo o pregador e folgar às suas custas. Mas esperem até quando
estiverem sobre o seu leito de morte e vocês não rirão mais, eu lhes garanto!
Agora que a cortina está cerrada, que o futuro está escondido de seus olhos,
lhes é fácil zombar do que virá; mas quando o Senhor levantar a cortina, e os horizontes
eternos se desenrolarem diante de seus olhos, vocês não terão mais
coragem
de rir. O rei Acabe, assentado em seu trono, rodeado de cortesãos, riu do profeta
Miquéias; mas não consta que ele tenha rido do profeta, quando uma flecha inimiga,
penetrando por uma emenda de sua couraça, o feriu mortalmente (I Re 22). Os
contemporâneos de Noé riram do venerável ancião que lhes anunciava que o Eterno
haveria de destruir o mundo por um dilúvio: sem nenhuma dúvida eles o tinham
por um sonhador, visionário, um insensato. Mas em que lhes tornou o seu desdém
e sarcasmos, ó céticos
quando
Deus fez descer do céu imensas cataratas, quando as fontes do grande abismo
foram abertas e o mundo foi inteiramente submerso? Então reconheceram, mas
tarde demais, que Noé havia dito a verdade.
E
vocês mesmos, pecadores que se encontram neste auditório, quando vocês estiverem
no ponto de serem lançados na eternidade, não creio que rirão ainda de mim e da
palavra que lhes anuncio. Antes dirão a si mesmos: “Eu me lembro daquela época,
quando um dia entrei por curiosidade naquele lugar de culto; eu
ouvi
um homem que falava de uma maneira forte e solene; naquele momento não gostei
muito; entretanto não poderia negar o pensamento de que ele me dizia a verdade
e que queria o meu bem. Oh! Como não escutei seus apelos! Como não aproveitei
seus avisos! O que não daria para poder ouvi-lo de novo!”
Há
pouco tempo um caso bem parecido veio ao meu conhecimento. Um homem que muitas
vezes me havia coberto de zombarias e injúrias, tendo partido num domingo para
uma viagem de passeio, voltou para sua casa apenas a tempo de morrer. Na manhã
da segunda-feira, sentindo seu fim aproximar-se, o que você pensa que ele fez?
Mandou chamar com pressa o servo de Deus que lhes fala neste momento, aquele
mesmo que ele havia insultado tantas vezes! Ele queria que ele lhe indicasse o
caminho para o céu, que lhe falasse do Salvador. Eu fui apressadamente e com
alegria. Mas infelizmente! Como é triste a tarefa de falar a um profanador do
sábado, a um contendor do Evangelho, a um homem que passou sua vida a serviço
de Satanás e que chega na sua última hora ! E de fato, o infeliz morreu logo.
Ele morreu sem a Bíblia em sua casa, sem oração pedindo a Deus por sua alma, a
não ser aquela que eu pronunciava na cabeceira de seu leito... Oh! Meus caros
amigos, creiam: é uma coisa terrível morrer sem Salvador! Certa vez, após ter
assistido
os últimos momentos de um pobre pecador que tocava a salvação de uma forma pela
qual eu teria pouca esperança, voltei para casa com a alma quebrada, o coração
entristecido, pensando comigo mesmo : “Meu Deus! Que eu possa pregar as
insondáveis riquezas de Cristo a cada hora, a cada instante do dia, a fim de
que as almas possam olhar para Cristo antes de que lhes seja tarde demais!”
Depois, eu pensei no pouco zelo, pouco amor, pouco fervor com o qual tantas
vezes anunciei as misericórdias de meu Mestre, e chorei – sim, eu chorei
amargamente, sentindo que não pressionei as almas como deveria fazer, ou seja,
com insistência e lágrimas, para fugirem da cólera que há de vir.
A
CÓLERA QUE HÁ DE VIR! A CÓLERA QUE HÁ DE VIR!
Oh!
meus queridos ouvintes, firmem bem em seus espíritos, eu lhes peço, que esta
não é uma palavra vã. As coisas sobre as quais lhes falo não são nem sonho, nem
fábulas de velhas.
São
verdades, e vocês as conhecerão logo, cada um por sua própria conta. Sim, pecador,
você que não tem perseverado em todas as coisas que estão escritas no livro da
Lei, e que não procurou refúgio junto a Cristo, o dia se aproxima quando as coisas
invisíveis se tornarão para você realidades vivas terríveis. E então, oh ! então, o que você fará ? Após a morte, segue o
julgamento.
Um dia
Jesus, do trono de sua Glória, virá julgar os vivos e os mortos. Tente imaginar
aquele grande e glorioso dia do Senhor. O relógio do tempo soou sua última hora.
As almas dos reprovados vão ouvir sua sentença definitiva. Seu corpo, ó
pecador, é lançado fora do sepulcro; você desenrola a mortalha e olha ...
Mas
que barulho terrível é esse? Um barulho formidável que abala as colunas da terra
e faz cambalear até o céu? É a trombeta do arcanjo, a trombeta do arcanjo que ressoa
até às extremidades da terra, chamando todos os homens para o julgamento! Você
ouve e treme. De repente uma voz se faz ouvir, voz que é saudada por uns com
gritos de desespero, por outros com cantos de alegria. “Eis que ele virá, ele
virá, e todo o olho o verá!” E o trono, branco como alabastro, aparece sobre uma
nuvem do céu; e sobre o trono, assentado alguém envolto em majestade. É Ele! É
o Homem que morreu no Calvário! Eu vejo suas mãos perfuradas, mas que mudança
em sua aparência! Nada de coroa de espinhos. Ele compareceu ao tribunal de
Pilatos. Agora o mundo inteiro comparece ao seu. Mas ouçam! A trombeta soou de
novo. O Juiz abre o Livro. Faz-se silêncio em todo o céu!
A
terra está totalmente em silêncio. “Reúnam meus eleitos dos quatro ventos, meus
resgatados das extremidades do mundo”. Também os anjos obedecem.
Como
um relâmpago, suas asas separam a multidão. Aqui, estão os justos, reunidos à
direita de seu Mestre; e você, pecador, você é deixado à esquerda.
Você é
deixado para suportar o ardor devorador da cólera eterna. As harpas celestes
fazem ouvir doces melodias, mas elas não são doces para você. Os anjos repetem
em coro: “Venham, vocês, benditos do Pai, e possuam por herança o reino que
lhes foi preparado desde a criação do mundo”; mas esta inefável saudação não
lhe diz respeito. E agora, sobre a face do Senhor se acumulam nuvens de
indignação; relâmpago cobre seu rosto; raios jorram de seus olhos. Ele olha
para você que o desprezou; você que brincou com sua graça, que riu de sua
misericórdia, que profanou o dia de seu repouso, que zombou de sua cruz, que
não quis que ele reinasse sobre sua alma! Ele olha para você, e com uma voz mais
tremenda que dez mil trovões, ele grita: “Aparte-se de mim, maldito!” E depois
... Não! ... Eu não quero lhe seguir mais longe! Não quero falar nem do verme
que nunca morre, nem do fogo que jamais se extingue; não quero descrever nem os
sofrimentos do corpo, nem as torturas da alma. Que me baste lhes dizer,
pecadores não convertidos, que o inferno é terrível, que a sorte dos reprovados
é pavorosa... Oh! Então fujam, fujam da cólera por vir! Fujam dela sem demora;
fujam dela já, pelo medo que sendo surpreendidos pela morte, vocês não se vejam
transportados, de um golpe, para o meio dos horrores indizíveis da perdição
eterna! Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no
livro da Lei, para praticá-las.
III
Mas,
Deus seja louvado, nós temos agora uma tarefa mais doce a cumprir. Nós viemos,
no nome de nosso Mestre, ANUNCIAR A LIBERTAÇÃO a todo pecador que se arrepende.
Você
me diz: “Pregador do Evangelho, você nos condenou a todos”. Isto é verdade,
meus queridos ouvintes. Entretanto, não sou eu, mas Deus é quem condena. Eu
posso dizer diante dos céus: eu lhes amo a todos, individualmente, como um
irmão ama seus irmãos. Se lhes falo com severidade, é unicamente
para o
seu bem. Meu coração, minha alma, estão cheios de compaixão por vocês; e em
minhas palavras, aquelas aparentemente mais duras, há na realidade mais amor
que nos discursos agradáveis daqueles que lhes dizem Paz, Paz! Quando não há
paz.
Oh!
Não creiam que tenho prazer em pregar como fiz hoje. Não, Deus me é testemunha!
Eu prefiro mil vezes lhes alimentar de Jesus, de sua doce e gloriosa pessoa, de
sua graça e de sua justiça perfeita; também, tenho em meu coração, antes de
terminar, de lhes fazer ouvir palavras de paz. Então se aproxime meu irmão;
dê-me sua mão e escute a mensagem da graça que lhe trago. Você se sente
culpado, condenado, maldito? Você diz neste mesmo instante: “Oh, Deus! Eu
reconheço que o senhor será justo em fazer cair sobre mim todo o peso de sua
maldição?” Você compreende que longe de poder ser salvo por causa de suas
obras, você está inteiramente perdido por causa de seus pecados? E você tem um
ódio profundo pelo mal? Você se arrepende sinceramente? Se é assim, cara alma,
deixe-me lhe dizer onde você encontrará a libertação.
Homens
irmãos! Saibam todos isto. Jesus Cristo, descendente de Davi, foi crucificado,
morto e enterrado. Agora, ele está ressuscitado, e assentado à direita de Deus
de onde intercede por nós. Ele veio ao mundo para salvar os pecadores pela sua
morte. Vendo que os pobres filhos de Adão estavam sujeitos à maldição, ele
mesmo se encarregou dessa maldição e assim lhes libertou. Se, então, Deus
amaldiçoou Cristo no lugar deste ou daquele homem, é impossível que ele
amaldiçoe esse homem de novo. “Mas Cristo foi amaldiçoado por mim?” – alguém me
pergunta. A isto lhe respondo: Deus o Santo Espírito lhe fez ver seu pecado ?
Ele lhe tem feito sentir toda a amargura? Ele lhe ensinou a dar este grito de
humilhação: Oh, Deus! Tem misericórdia de mim que sou pecador? Se, na
sinceridade de seu coração, você pode responder afirmativamente a estas questões,
tenha bom ânimo, meu muito amado; Cristo foi feito maldição em seu lugar; e se
Cristo foi feito maldito em seu lugar, você não está mais sujeito à maldição.
“Mas eu queria ter certeza - talvez você insista; gostaria de não poder duvidar
que Jesus foi realmente feito maldição por mim.” E por que você duvidaria, meu
irmão? Você não vê Jesus expirando sobre a cruz? Não vê suas mãos e seus pés ensanguentados?
Olhe para Ele, pobre pecador. Não olhe mais para si nem para suas iniquidades;
olhe para Ele e seja salvo. Tudo o que ele exige de você, é que você olhe para
Ele e por isso mesmo Ele lhe dará a sua segurança. Venha a Ele, confie e creia.
Oh! Eu lhe suplico, aceite com simplicidade e fé esta declaração da Escritura:
é uma coisa certa e digna de ser recebida com inteira confiança, que Jesus
Cristo veio ao mundo para salvar o pecador.
O quê?
Alguém ainda objeta. “Devo crer então, que Jesus morreu por mim, simplesmente
porque eu me sinto pecador?” Justamente, meu irmão. “Mas no entanto, me parece
que, se eu possuísse alguma justiça, se pudesse fazer belas orações ou boas
obras, seria mais direito concluir que Cristo morreu por mim.”
Você
se engana, meu irmão, você se engana. A fé que então você teria, não seria mais
a fé; isso seria justiça própria e nada mais. Uma alma crê em Jesus, quando o
pecado lhe parecendo em todo seu negror, ela se lança simplesmente nos seus braços,
e se dá a Ele para a purificar de todas as suas manchas. Então vá, pobre pecador,
como você está, com sua indignidade e miséria; tome em suas mãos as promessas
de Deus, e, ao entrar em sua casa, procure a solidão de seu quarto. Lá,
ajoelhe-se junto ao seu leito, derrame sua alma diante de Deus. Diga a este Deus
que é rico em compaixão e abundante em misericórdia: “Oh, Senhor! Eu sei que
tudo o que acabo de ouvir é verdade. Sim, eu sou maldito e maldito justamente!
Eu sou um pecador que merece a condenação eterna. E tu sabes, ó Senhor, estas
confissões tomam agora em minha boca um sentido completamente diferente. Ao
reconhecer que sou pecador, quero dizer que sou um verdadeiro pecador. Eu quero
dizer que se tu me condenares, eu não teria nada a dizer, que se tu me separar
para sempre de tua presença, eu teria apenas o que me é devido. Oh, meu Deus !
Teu sustento para comigo me maravilha e me confunde. Como tu pudeste sofrer por
um ser tão vil como eu, que enlameou tanto tempo a terra ? Senhor, eu zombei de
tua graça e desdenhei teu Evangelho. Eu desprezei as instruções de minha mãe e
esqueci das orações de meu pai. Senhor, eu vivi longe de ti, violei teus
sábados, profanei teu santo nome. Eu fiz tudo que é mal, tudo o que é
desagradável aos teus olhos; e se tu me precipitasses no inferno, eu seria
reduzido ao silêncio. Sim, meu Deus, eu sou um pecador. Um pecador perdido sem
socorro, a menos que tu me salves; um pecador sem nenhuma esperança de
salvação, a menos que tu me libertes ! Mas, graças te dou, ó Senhor, tu sabes
que também eu sou um pecador arrependido, acusado em sua consciência, afligido
por causa de suas transgressões. E assim, venho nesta noite te lembrar o que tu
disseste em tua Palavra: Eu não lançarei fora, aquele que vier a mim; e mais :
é uma coisa certa e digna de ser recebida com inteira confiança, que Jesus
Cristo veio ao mundo para salvar os pecadores.
Senhor,
eu venho a ti! Senhor, eu sou um pecador! Jesus veio então para me salvar;
Senhor, eu creio! Eu me confio ao meu Senhor para a vida e para a morte!
Eu não
tenho esperança, a não ser nele e odeio até o pensamento que diz que eu possa
encontrar salvação além de tua graça. Salve-me então, Senhor; e ainda que eu
bem saiba que pela minha conduta futura, eu não poderia jamais conseguir apagar
um único de meus pecados passados, quero entretanto, te suplicar, ó meu Deus,
que me dês um coração novo e um espírito reto, a fim de que a partir de hoje e
para sempre, eu possa correr no caminho dos teus mandamentos; porque não tenho
desejo maior, que ser santo como tu és santo e de andar diante de ti como teu
filho. Tu sabes, ó Senhor, para ser amado por ti, eu renunciarei
voluntariamente
a tudo o que possuo, e ouso esperar que tu me ames, porque meu coração começa a
sentir os abraços do teu amor. Eu sou culpado, mas nunca teria conhecido minha
culpa se tu não a tivesses feito conhecê-la. Eu sou vil, mas jamais saberia que
sou vil, se tu não me tivesses revelado. Oh!
Certamente,
meu Deus, tu não me destruirás, após ter começado em mim tua boa obra.
Diante
de ti, eu me envergonho e permaneço confuso!
Mas,
Senhor, tua bondade tira minha miséria;
Tu não
tens, entre ela e tua cólera,
Posto
o amor, a cruz e o sangue de Jesus?
Sim,
ore assim, meu mui amado; ou, se você não puder orar tão longamente, diga estas
simples palavras do fundo do coração: “Senhor Jesus, eu não sou nada! Sejas tu
mesmo o meu tudo!”
Oh!
Deus permita que haja nesta assembleia algumas almas que, neste mesmo instante,
façam subir este grito em direção ao seu trono! E se assim for, saltem de alegria,
ó céus! Cantem, ó serafins! Rejubilem-se, ó resgatados! Porque está aqui a obra
do Eterno. Que toda a glória seja dada a seu nome! Amém.